CAIXADEBRINQUEDO

um lugar para guardar lembranças

Inverno
 



No dia em que fui mais felizEu vi um aviãoSe espelhar no seu olhar até sumirDe lá pra cá não seiCaminho ao longo do canalFaço longas cartas pra ninguémE o inverno no Leblon é quase glacial
Algo que jamais se esclareceuOnde foi exatamente que largueiNaquele dia mesmoO leão que sempre cavalguei
Lá mesmo esqueci que o destinoSempre me quis sóNo deserto sem saudade, sem remorso sóSem amarras, barco embriagado ao marNão sei o que em mimSó quer me lembrarQue um dia o céu reuniu-se à terra um instante por nós doisPouco antes de o ocidente se assombrar
http://sabinemirlesse.com/___preventricular-arrhythmia

Inverno

 

No dia em que fui mais feliz
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir
De lá pra cá não sei
Caminho ao longo do canal
Faço longas cartas pra ninguém
E o inverno no Leblon é quase glacial

Algo que jamais se esclareceu
Onde foi exatamente que larguei
Naquele dia mesmo
O leão que sempre cavalguei

Lá mesmo esqueci que o destino
Sempre me quis só
No deserto sem saudade, sem remorso só
Sem amarras, barco embriagado ao mar
Não sei o que em mim
Só quer me lembrar
Que um dia o céu reuniu-se à terra um instante por nós dois
Pouco antes de o ocidente se assombrar

http://sabinemirlesse.com/___preventricular-arrhythmia

putaspalavras:

|Rua da Palma, número cinco|
Na sétima série aprendi: um homem não deve tomar decisões de cabeça cheia. Numa aula de português, o Daniel Simbemberg desenhou a minha mãe de topless no meio de dois ninjas pelados. Não aguentei.  Abri a testa do judeu na quina da mesa. Expulso da escola, passei um ano proibido de jogar video game. O saldo positivo é que desenvolvi uma técnica para não perder a cabeça. Sempre que a vida me coloca numa situação extrema, vou ao banheiro, abro o ziper e bato uma punheta. Só depois tomo qualquer atitude. 
 Graças à técnica, sobrevivo ao mercado sujo dos corretores imobiliários. Nunca fui expulso da pelada de sábado e, desde que casei, a única mulher que como é a minha. Claro que em sete anos de casado já sai com outras pra jantar e até beijei na boca, mas bola dentro é exclusividade da Marta. O problema é que a recepcionista da imobiliária decidiu dar pra mim. A mulata é gostosa à beça. Não tem punheta que dê conta. Todo dia é um decote novo, um convite pra almoçar, beber cerveja. Semana passada, entrou no banheiro masculino logo depois que eu entrei. Josiane disse que estava apertada e achou que não tinha ninguém. Papo. A porta fica em frente à recepção. 
 Naquela tarde, bati oito. Pau esfolado, restava tomar uma cerveja. Chamei o Marcão. O cara é primo da Marta, mas somos amigos desde que mudei de escola. Bebemos sempre no mesmo bar perto da estação Vila Mariana. Na época de faculdade, todas as noites. Hoje em dia, quando as mulheres viajam ou surge um puta problema. Cheguei ao Bar, Marcão estava sentado junto ao balcão, na curva para o banheiro. Pedi um copo e uma cerveja. Seu Danilo fez o velho truque da garrafa desequilibrada. E claro, eu cai. Foi só Seu Danilo dar as costas e desatei a contar sobre a Josiane, os decotes, os convites, o lance do banheiro, as oito punhetas. Puta sinuca de bico. Marcão falou que não adianta comer uma vez, o cara sempre quer mais, quer outra e mais outra. Fosse assim, melhor separar, mas achava mancada. Além de Marta ser prima, não incomoda com besteira. O celular vibrou no balcão. Era um SMS da Josiane. Chamou eu para ir num samba. Mostrei a mensagem para o Marcão e sai para o banheiro. Abri o ziper do mictório e fechei os olhos. Concentrei no barulho da água na calha do mictório. Senti uma mão aspera pegar meu pau. Não abri os olhos até o Marcão terminar o serviço. O cara se preocupa com a família. Chamou hoje pra beber.

putaspalavras:

|Rua da Palma, número cinco|

Na sétima série aprendi: um homem não deve tomar decisões de cabeça cheia. Numa aula de português, o Daniel Simbemberg desenhou a minha mãe de topless no meio de dois ninjas pelados. Não aguentei.  Abri a testa do judeu na quina da mesa. Expulso da escola, passei um ano proibido de jogar video game. O saldo positivo é que desenvolvi uma técnica para não perder a cabeça. Sempre que a vida me coloca numa situação extrema, vou ao banheiro, abro o ziper e bato uma punheta. Só depois tomo qualquer atitude. 

Graças à técnica, sobrevivo ao mercado sujo dos corretores imobiliários. Nunca fui expulso da pelada de sábado e, desde que casei, a única mulher que como é a minha. Claro que em sete anos de casado já sai com outras pra jantar e até beijei na boca, mas bola dentro é exclusividade da Marta. O problema é que a recepcionista da imobiliária decidiu dar pra mim. A mulata é gostosa à beça. Não tem punheta que dê conta. Todo dia é um decote novo, um convite pra almoçar, beber cerveja. Semana passada, entrou no banheiro masculino logo depois que eu entrei. Josiane disse que estava apertada e achou que não tinha ninguém. Papo. A porta fica em frente à recepção. 

Naquela tarde, bati oito. Pau esfolado, restava tomar uma cerveja. Chamei o Marcão. O cara é primo da Marta, mas somos amigos desde que mudei de escola. Bebemos sempre no mesmo bar perto da estação Vila Mariana. Na época de faculdade, todas as noites. Hoje em dia, quando as mulheres viajam ou surge um puta problema. Cheguei ao Bar, Marcão estava sentado junto ao balcão, na curva para o banheiro. Pedi um copo e uma cerveja. Seu Danilo fez o velho truque da garrafa desequilibrada. E claro, eu cai. Foi só Seu Danilo dar as costas e desatei a contar sobre a Josiane, os decotes, os convites, o lance do banheiro, as oito punhetas. Puta sinuca de bico. Marcão falou que não adianta comer uma vez, o cara sempre quer mais, quer outra e mais outra. Fosse assim, melhor separar, mas achava mancada. Além de Marta ser prima, não incomoda com besteira. O celular vibrou no balcão. Era um SMS da Josiane. Chamou eu para ir num samba. Mostrei a mensagem para o Marcão e sai para o banheiro. Abri o ziper do mictório e fechei os olhos. Concentrei no barulho da água na calha do mictório. Senti uma mão aspera pegar meu pau. Não abri os olhos até o Marcão terminar o serviço. O cara se preocupa com a família. Chamou hoje pra beber.

(Fonte: putaspalavras)

regardintemporel:

Zbigniew Lagocki - Nu, 2001

regardintemporel:

Zbigniew Lagocki - Nu, 2001

(via foxesinbreeches)


Oração Ao Tempo
 



És um senhor tão bonitoQuanto a cara do meu filhoTempo tempo tempo tempoVou te fazer um pedidoTempo tempo tempo tempo…
Compositor de destinosTambor de todos os rítmosTempo tempo tempo tempoEntro num acordo contigoTempo tempo tempo tempo…
Por seres tão inventivoE pareceres contínuoTempo tempo tempo tempoÉs um dos deuses mais lindosTempo tempo tempo tempo…
Que sejas ainda mais vivoNo som do meu estribilhoTempo tempo tempo tempoOuve bem o que te digoTempo tempo tempo tempo…
Peço-te o prazer legítimoE o movimento precisoTempo tempo tempo tempoQuando o tempo for propícioTempo tempo tempo tempo…
De modo que o meu espíritoGanhe um brilho definidoTempo tempo tempo tempoE eu espalhe benefíciosTempo tempo tempo tempo…
O que usaremos prá issoFica guardado em sigiloTempo tempo tempo tempoApenas contigo e comigoTempo tempo tempo tempo…
E quando eu tiver saídoPara fora do teu círculoTempo tempo tempo tempoNão serei nem terás sidoTempo tempo tempo tempo…
Ainda assim acreditoSer possível reunirmo-nosTempo tempo tempo tempoNum outro nível de vínculoTempo tempo tempo tempo…
Portanto peço-te aquiloE te ofereço elogiosTempo tempo tempo tempoNas rimas do meu estiloTempo tempo tempo tempo…

Oração Ao Tempo

 

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo…

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo…

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo…

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo…

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo…

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo…

O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo…

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo…

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo…

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo…

tylerknott:

Typewriter Series #408 by Tyler Knott Gregson
Text for Tired Eyes:
I think she has roots in the soles of her feetand when she walksshe plants herself into the earthand lets the earth take hold of her.I think if you listened close enoughfor long enoughyou could just make out the soundof those roots in those soleslifting through the soilsighing in the sunlightand digging their way back into the darknesswith each and every step.I’ve met people who are fire,all flame and spark and the promiseof combustion.Without fail and without doubtI’ve been burned and boiledand left with nothing but the residueof the ash they left behind on my skin.I’ve felt the breezes of people who are wind,airy and light and always drifting.They cool the soul and for a momentyou close your eyes and feel theirbreath across your face but always,always, open them sometime or anotherto their absence.  They always,always, blow away and you’re leftwith tousled hair and the numbness wherethey rested.I think I am the water and I think I alwayshave been.  I go my own way and somehowwithout knowing how, find my way through thecracks and crevices, the grooves and holesin the rocks that form around thesefragile hearts.I think she is the earth and has rootsin her soles and leaves in her hair.She curls her toes into the sand andbraces herself against the wind,defiant against the flamesand holds tight to the world as itspins beneath her.  We spin and onlyshe can feel it. I think she has roots and her rootsneed water and I am the water and alwayshave been and know and hold the secretsto sinking beneath the soilto give strength to the growththat’s been waiting to come.Some people are fireand some are windbut we are water and earthand through the roots on herfeet and the leaves in her hairshe will drink me and absorball I have ever been.I can hear the soundof her footstepsnow.

tylerknott:

Typewriter Series #408 by Tyler Knott Gregson

Text for Tired Eyes:

I think she has roots in the soles of her feet
and when she walks
she plants herself into the earth
and lets the earth take hold of her.
I think if you listened close enough
for long enough
you could just make out the sound
of those roots in those soles
lifting through the soil
sighing in the sunlight
and digging their way back into the darkness
with each and every step.
I’ve met people who are fire,
all flame and spark and the promise
of combustion.
Without fail and without doubt
I’ve been burned and boiled
and left with nothing but the residue
of the ash they left behind on my skin.
I’ve felt the breezes of people who are wind,
airy and light and always drifting.
They cool the soul and for a moment
you close your eyes and feel their
breath across your face but always,
always, open them sometime or another
to their absence.  They always,
always, blow away and you’re left
with tousled hair and the numbness where
they rested.
I think I am the water and I think I always
have been.  I go my own way and somehow
without knowing how, find my way through the
cracks and crevices, the grooves and holes
in the rocks that form around these
fragile hearts.
I think she is the earth and has roots
in her soles and leaves in her hair.
She curls her toes into the sand and
braces herself against the wind,
defiant against the flames
and holds tight to the world as it
spins beneath her.  We spin and only
she can feel it.
I think she has roots and her roots
need water and I am the water and always
have been and know and hold the secrets
to sinking beneath the soil
to give strength to the growth
that’s been waiting to come.
Some people are fire
and some are wind
but we are water and earth
and through the roots on her
feet and the leaves in her hair
she will drink me and absorb
all I have ever been.

I can hear the sound
of her footsteps
now.


Theresa Hak Kyung Cha

Theresa Hak Kyung Cha

(Fonte: gatekept, via poetsorg)